Uma atitude positiva faz toda a diferença na recuperação de um jovem após um AVC
Ele não sabia o que o havia atingido.
Em 21 fev. 2022, Jack Smiley, estudante do segundo ano do Endicott College, treinava no gelo com os companheiros de hóquei. Ele havia se sentido bem o dia inteiro. Mas, perto do fim do treino, foi atingido pelo que descreveu como "uma parede de todos os sintomas de uma só vez."
Primeiro, sentiu-se desorientado e não conseguia recuperar o fôlego. Achando que precisava apenas descansar, patinou até o banco. No caminho, percebeu que o pé direito não fazia o que ele queria. Logo perdeu toda a coordenação.
"Meu braço direito começou a não funcionar direito", disse ele. "Todos os sinais neurológicos que eu tentava enviar aos músculos não eram ativados corretamente. Foi então que soube que havia algo definitivamente errado."
Quando os companheiros de equipe não conseguiram entender o que Jack dizia, chamaram o preparador. Em poucos minutos, Jack foi levado às pressas a um hospital local. Após receber o diagnóstico de AVC, foi transferido para a unidade de terapia intensiva neurológica (NeuroICU) do Massachusetts General Hospital.
Em busca da causa do AVC
David J. Lin, MD, neurologista de cuidados intensivos e especialista em neurorreabilitação, fazia parte da equipe de cuidados de Jack na NeuroICU. Ele disse que Jack havia sofrido um AVC no tronco cerebral, uma área que afeta a respiração, os movimentos e outras funções essenciais. No entanto, a causa do AVC foi inicialmente um mistério.
A equipe clínica de Jack continuou investigando. Durante conversas com a família, alguém mencionou que Jack havia recebido um golpe na parte de trás do pescoço durante uma partida várias semanas antes. Esse fato levou o Dr. Lin e seus colegas a reexaminar alguns exames de imagem que já haviam analisado. Dessa vez, detectaram em uma das imagens uma pequena fratura no osso que envolve a artéria vertebral esquerda.
"Esta é uma das principais artérias que sobe pela parte posterior do cérebro e fornece sangue ao tronco cerebral", explicou o Dr. Lin. "Concluímos que ele teve uma dissecção vertebral, ou ruptura, da artéria devido àquele golpe inicial. Isso levou à formação de um coágulo sanguíneo na artéria, que depois chegou ao tronco cerebral e causou o AVC."
Embora o AVC em pacientes jovens e saudáveis seja relativamente incomum, a dissecção da artéria vertebral é uma causa conhecida, especialmente no contexto de trauma. O diagnóstico permitiu que a equipe personalizasse um plano de tratamento voltado ao controle médico e à neurorrecuperação.
Nesse momento, os médicos não tinham certeza se Jack voltaria a andar. No entanto, observou o Dr. Lin, é muito difícil prever como será a recuperação de um AVC para qualquer paciente. E Jack tinha dois fatores importantes a seu favor: a idade e a atitude.
"Ser jovem, estar em boa forma e ter mobilidade física como condição inicial certamente ajuda na recuperação funcional a longo prazo", disse o Dr. Lin. "Jack conseguiu aceitar muito cedo o que havia acontecido. E estava extremamente motivado a voltar a jogar hóquei, um objetivo que desempenhou um papel importante em sua recuperação."
Jack posando com seu uniforme e equipamento de hóquei.
Jack Smiley, paciente
Sem perder tempo para iniciar os cuidados
Na NeuroICU, Jack recebeu cuidados de neurologistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, além de enfermeiros e farmacêuticos. Esse envolvimento multidisciplinar desde o início é um pilar do modelo de cuidados neurocríticos do Mass General, que pode melhorar significativamente a recuperação após um AVC. Outro fator essencial é agir no momento certo.
"Um aspecto único da NeuroICU do Mass General é reconhecermos que a recuperação e os cuidados abrangentes devem começar no momento em que um paciente com AVC chega", disse o Dr. Lin. "Mobilizamos os pacientes o mais cedo possível para entender o que conseguem ou não fazer e encaminhá-los na direção certa."
Cerca de uma semana após o AVC, Jack foi considerado clinicamente estável o suficiente para sair da NeuroICU. Como a maioria dos pacientes com AVC do Mass General, ele foi transferido para o Spaulding Rehabilitation Hospital Boston para a reabilitação.
O Spaulding e o Mass General fazem parte do sistema de saúde Mass General Brigham, e a comunicação entre os dois hospitais é integrada.
"A recuperação que começa na NeuroICU do Mass General continua no Spaulding", disse o Dr. Lin. "Desde a troca de documentação entre nossos terapeutas ocupacionais até a transferência de informações entre os médicos, há um plano de transição para garantir a continuidade dos cuidados."
Essa continuidade é fortalecida pela estreita colaboração entre áreas e instituições. As metas terapêuticas, a documentação e os planos de tratamento são compartilhados e alinhados entre as equipes para que pacientes como Jack tenham uma recuperação consistente e personalizada.
Jack Smiley volta ao gelo pela primeira vez
Jack volta ao gelo pela primeira vez.
Terapia alinhada aos seus interesses
Ao chegar ao Spaulding, Jack não tinha nenhuma função no lado direito e não conseguia comer, falar nem sair da cama. Ele enfrentou a reabilitação com vigor, concluindo de seis a sete sessões de terapia por dia.
Com janelas do chão ao teto e muita luz natural, o espaço de reabilitação do Spaulding era um ambiente agradável para se exercitar. A equipe clínica de Jack também teve o cuidado de personalizar a terapia para refletir quem ele é como pessoa.
"Eles sempre me perguntavam quais eram meus objetivos, o que eu queria alcançar e onde queria chegar", disse Jack. "Trouxeram meu taco de hóquei, que usei na terapia. E incluíram atividades que me envolveriam como pessoa, como arremessar um saquinho de feijão ou uma bola de basquete."
Entre os principais integrantes da equipe de Jack no Spaulding estavam o fisioterapeuta William Santana, PT, DPT, e o terapeuta ocupacional Nick Herring, OT.
"Eles encontraram maneiras de adaptar minha recuperação e incorporar estratégias na academia ao meu estilo", disse Jack. "Tornaram as atividades competitivas. Eles me desafiaram de maneiras que provocavam uma reação e me davam vontade de melhorar. Encontrar alguém que consiga fazer isso é difícil, e eles fizeram isso muito bem comigo."
Após um mês de terapia durante a internação, Jack conseguiu sair caminhando do Spaulding usando apenas uma bengala. Sua próxima parada foi um apartamento totalmente acessível do outro lado da rua, onde morou com a mãe enquanto fazia terapia ambulatorial no Spaulding.
A transição para fora do hospital foi difícil. Da mão e do braço até a panturrilha e o tornozelo, o lado direito de seu corpo ainda não funcionava corretamente. As dificuldades para caminhar exigiam que continuasse usando uma bengala. Também foi difícil deixar um ambiente onde ficava cercado 24 horas por dia, 7 dias por semana, por outras pessoas em jornadas de recuperação semelhantes.
Mas Jack perseverou. Após dois meses de terapia ambulatorial, estava pronto para voltar à casa da família no sudeste da Pensilvânia. Ele disse que o Spaulding sempre terá um lugar especial em seu coração.
"Não consigo imaginar um lugar melhor no que faz do que o Spaulding", disse ele. "A forma como pensam a terapia, as maneiras coesas de usar suas ferramentas e as pessoas que contratam como terapeutas: É a combinação perfeita para você ter a melhor recuperação possível."
Jack fazendo treinamento de força com o amigo e treinador Jeff LoVecchio, jogador profissional de hóquei aposentado.
Eles sempre me perguntavam quais eram meus objetivos, o que eu queria alcançar e onde queria chegar.
Jack Smiley
- Paciente
Elaboração de um programa de reabilitação personalizado
Enquanto fazia terapia durante a internação e em regime ambulatorial no Spaulding, Jack fez várias consultas na Mass General NeuroRecovery Clinic, dirigida pelo Dr. Lin. A clínica se concentra na recuperação e reabilitação a longo prazo de pacientes com lesões neurológicas agudas, incluindo AVC.
Um paciente típico que sofre um AVC pode precisar de cuidados em um hospital de atendimento agudo como o Mass General, em uma unidade de reabilitação como o Spaulding e em um centro ambulatorial depois de voltar para casa. Aumentar a continuidade dos cuidados entre esses ambientes é uma prioridade importante para a NeuroRecovery Clinic.
Manter um modelo de cuidados interdisciplinar e colaborativo também é uma prioridade. Durante uma consulta típica, um neurologista apresenta sua perspectiva sobre a recuperação do paciente e as opções terapêuticas. Cada paciente é atendido simultaneamente por especialistas em neurologia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, farmácia, nutrição, psicologia e serviço social.
"Um aspecto único de nossa clínica é contar com neurologistas especificamente treinados para observar padrões de lesão no cérebro e analisar profundamente como os pacientes realizam funções", disse o Dr. Lin. "Em seguida, oferecemos estratégias, incluindo abordagens terapêuticas, medicamentos e dispositivos, para restaurar a função neurológica e ajudar os pacientes a se recuperarem melhor, mais rápido e de forma mais completa."
Esse modelo permitiu que Jack e sua família criassem um programa de neurorreabilitação altamente personalizado, de alta dose e alta intensidade, fundamentado tanto na ciência clínica quanto em seus objetivos pessoais. Inspirado na história de Jack, um editorial recente do Dr. Lin e coautores, publicado na revista Stroke, discutiu a necessidade essencial de neurorreabilitação em doses mais altas e mais intensiva após um AVC.
Com contribuições da NeuroRecovery Clinic, Jack e sua família elaboraram um programa de reabilitação personalizado para vários anos. Ele incorporou diferentes tipos de movimento em atividades como hóquei, ioga, dança e treinamento de artes marciais mistas.
Ao voltar para a casa dos pais, Jack iniciou de fato seu programa de terapia personalizado, inclusive com a assistência de uma unidade de reabilitação local. Ele tirou o ano letivo de 2022-23 para se concentrar na recuperação.
Adaptação a déficits mentais e físicos
No outono de 2023, Jack voltou ao Endicott como estudante em tempo integral, cursando ciência do exercício. Seu terceiro ano foi extenuante, pois aprendeu a lidar com déficits mentais e físicos enquanto tentava acompanhar a fisioterapia, a carga de estudos e a vida social. Mas poder voltar à equipe de hóquei — nada menos que como capitão — fez tudo valer a pena.
"Eu era parte integrante da equipe e participei de tudo desde o início: todos os treinos da primavera, treinos dos capitães e sessões de exercícios", disse ele. "Nunca tive a oportunidade de jogar uma partida, mas fiz todo o resto."
Embora percebesse que sua carreira no hóquei talvez fosse diferente do que imaginara, Jack esperava voltar à equipe da faculdade no último ano e realizar o sonho de jogar mais um turno no gelo.
Jack ainda faz fisioterapia por conta própria, além de consultar a equipe da NeuroRecovery Clinic a cada seis meses. O progresso que alcançou até agora surpreendeu o Dr. Lin.
"Esta é uma pessoa que não tinha nenhum movimento no braço nas primeiras semanas após o AVC. E agora ele não apenas movimenta o braço com fluidez, mas também pula pelo corredor da clínica, faz agachamentos e vai para o gelo", disse o Dr. Lin. "Sua recuperação mostra o que é possível quando a recuperação após um AVC é facilitada por uma abordagem integrada e multidisciplinar que começa cedo. É uma prova de como a reabilitação personalizada pode favorecer não apenas a recuperação médica, mas também a plena reintegração à vida.”
A recuperação e a determinação de Jack foram tão impressionantes que o Dr. Lin lhe ofereceu um estágio em seu Laboratory for Translational Neurorecovery no verão de 2024. "Fazemos o máximo possível para integrar as perspectivas dos pacientes à nossa pesquisa, portanto ter alguém como Jack, que viveu essa experiência, é inestimável para nosso trabalho", disse o Dr. Lin.
O laboratório integra as perspectivas dos pacientes ao seu trabalho, e a experiência vivida por Jack oferece informações essenciais para a pesquisa sobre recuperação após AVC.
Pouco depois de iniciar o estágio, Jack ficou empolgado com a oportunidade de trabalhar com o Dr. Lin e talvez até seguir uma carreira em reabilitação de AVC. Jack é apaixonado por disponibilizar a outros sobreviventes de AVC as oportunidades que lhe permitiram maximizar a recuperação. E, naturalmente, continuará mantendo uma atitude positiva ao enfrentar quaisquer desafios que possam surgir.
"Tudo se resume a me concentrar somente no que posso fazer hoje para construir um amanhã melhor", disse ele. "Ainda tenho uma vida para viver e coisas que quero fazer. Vou dar o meu melhor para alcançar a melhor recuperação possível, leve isso três semanas, 20 anos, 40 anos ou 70 anos."
Em 15 fev. 2025, três anos após o AVC que mudou sua vida, Jack jogou uma partida competitiva de hóquei na Senior Night. Em uma vitória por 4-1 sobre a Johnson & Wales University, Jack patinou em três turnos e alcançou seu objetivo de voltar ao gelo com os companheiros de equipe. Ele começou a partida e estava no gelo quando a sirene final soou, ajudando a equipe a garantir a vitória.
Fora do gelo, Jack está concentrado em um novo objetivo: ajudar outros sobreviventes de AVC a superar adversidades. Assim como no hóquei, ele sabe que, com uma mentalidade positiva, uma forte rede de apoio e a determinação de continuar avançando, não há limites para o que você pode alcançar.
Jack segurando um troféu depois que ele e sua equipe de hóquei do Endicott venceram o campeonato Commonwealth Coastal Conference de 2024.