Transtornos alimentares em atletas do sexo feminino
Kendra Becker, PhD
Aviso de conteúdo: Discussão sobre transtornos alimentares, imagem corporal e peso
Praticar esportes traz inúmeros benefícios para a saúde física e mental. No entanto, atletas — especialmente mulheres — apresentam maior risco de desenvolver transtornos alimentares.
“Na população em geral, existe uma grande valorização da magreza e da boa forma, especialmente entre as mulheres. As atletas ainda enfrentam a pressão adicional de ter um bom desempenho. Elas são incentivadas a treinar muito, ganhar músculos e perder gordura”, diz Kendra Becker, PhD, psicóloga clínica do Mass General Brigham no Women’s Sports Medicine Program e diretora de pesquisa translacional do Eating Disorders Clinical and Research Program do Massachusetts General Hospital.
A anorexia nervosa e a bulimia nervosa, dois transtornos alimentares associados à insatisfação com a imagem corporal, afetam aproximadamente 1,6% dos adultos dos Estados Unidos e cerca de 2% dos adolescentes do país. Entre atletas do sexo feminino, esses números aumentam muito e podem chegar a 42%, dependendo da idade, do tipo de esporte e do nível de competição. Além disso, até 70% das atletas podem adotar comportamentos que podem evoluir para um transtorno alimentar, como restringir a alimentação e tentar perder peso.
Atletas com maior risco de transtornos alimentares
Atletas do sexo feminino apresentam maior risco de transtornos alimentares quando praticam um esporte voltado ao desempenho individual. Entre os exemplos estão corrida, natação, ciclismo e cross-country, modalidades em que um peso corporal menor pode ser considerado uma vantagem.
Outro fator de risco é participar de esportes com componente subjetivo ou avaliação por juízes, como balé, ginástica, saltos ornamentais e patinação artística. Além disso, quanto maior o nível de competição e a competitividade da pessoa, maior a probabilidade de ela buscar qualquer vantagem possível, como perder peso.
“Pessoas muito dedicadas ao esporte estão sempre tentando melhorar cada vez mais naquela atividade. Elas corrigem pequenas falhas na execução e no desempenho. Isso pode aumentar o risco de pensamentos perfeccionistas e de comportamentos alimentares desordenados”, diz a Dra. Becker.
Por outro lado, atividades em equipe, como vôlei e softball, podem ter um efeito protetor contra transtornos alimentares, acrescenta ela.
Consequências de uma alimentação restritiva para a saúde dos atletas
A Dra. Becker ressalta que ficar magro demais para o próprio corpo afeta o desempenho e a saúde ao longo do tempo. “Atletas precisam de bastante nutrição para fazer o que fazem. É preciso consumir calorias, gorduras e nutrientes suficientes de todos os grupos alimentares para realizar as atividades de que estamos falando — e ter o melhor desempenho possível.”
Atletas do sexo feminino que treinam em excesso podem apresentar deficiência energética relativa no esporte (RED-S). Essa condição ocorre quando a pessoa não consome calorias suficientes para fornecer a energia exigida pelo seu nível de atividade física. A RED-S pode causar:
- Baixa energia, que pode prejudicar o desempenho e aumentar o risco de lesões
- Níveis baixos de estrogênio, que podem interferir na menstruação normal e prejudicar a saúde reprodutiva a longo prazo, além do funcionamento do cérebro e do coração
- Redução da densidade mineral óssea, essencial para a saúde dos ossos e cuja diminuição aumenta o risco de fraturas
- Comprometimento da função imunológica, reduzindo a capacidade de combater infecções
- Problemas gastrointestinais, como inchaço e constipação
- Maior risco de depressão e ansiedade
“Se você não receber nutrição suficiente, seu corpo começará a retirar recursos de outras áreas. É por isso que a saúde dos ossos é prejudicada. É por isso que a saúde do cérebro é prejudicada. Seu corpo vai reagir para tentar manter suas funções”, diz a Dra. Becker. “Quando você é jovem, algumas dessas consequências parecem tão distantes que podem não parecer importantes em comparação com correr um pouco mais rápido ou receber uma nota mais alta de um juiz. Mas o impacto pode ser duradouro.”
Como reconhecer um transtorno alimentar
Os sinais de um transtorno alimentar em um atleta podem incluir:
- Perda de peso: A perda de peso pode ser um sinal de alerta de comportamento alimentar desordenado em um atleta, principalmente em adolescentes.
- Ansiedade: Muitas pessoas que desenvolvem transtornos alimentares apresentam sintomas de um transtorno de ansiedade, como pensamentos perfeccionistas, ansiedade social ou preocupação em passar vergonha ou ser avaliadas negativamente pelos outros.
- Mudanças claras de humor: Atletas com transtornos alimentares também podem deixar de sentir prazer no esporte.
- Deixar de comer alimentos favoritos: Atletas muitas vezes procuram otimizar a alimentação, por exemplo, trabalhando com um nutricionista. Mas excluir alimentos favoritos ou grupos alimentares inteiros pode ser um sinal de alerta.
- Deixar de fazer refeições com outras pessoas: Se um atleta evita comer com amigos, familiares ou colegas de equipe, isso pode ser um sinal de alerta.
- Treinar o tempo todo: Um atleta que acredita precisar treinar constantemente pode despertar preocupação. Por exemplo, pode tentar incluir exercícios em momentos que seriam de descanso ou simplesmente não descansar.
Dra. Becker ressalta que nem todas as pessoas com transtorno alimentar apresentam os mesmos comportamentos. Por exemplo, uma pessoa com “anorexia atípica” apresenta sintomas de anorexia, como uma alimentação muito restrita, mas não está abaixo do peso. Ela também ressalta que, embora atletas do sexo feminino tenham maior risco, os transtornos alimentares podem afetar pessoas de qualquer gênero e idade — de crianças a idosos.
[O]s transtornos alimentares não são uma escolha. Não se trata de vaidade. Um transtorno alimentar envolve uma interação complexa de neurobiologia, genética, traços de personalidade e outros fatores.
Kendra Becker, PhD
- Psicóloga clínica, Women’s Sports Medicine Program, Mass General Brigham
Como ajudar um atleta com transtorno alimentar
A Dra. Becker incentiva pais, treinadores e colegas de equipe a valorizar as habilidades e dar menos ênfase ao peso e ao formato do corpo. “Crie um espaço seguro em que cada atleta possa ter o corpo que tem, sem julgamentos. Valorize as coisas incríveis que os atletas conseguem fazer — você consegue correr tão rápido, dar tantas voltas no ar, tem uma resistência impressionante.”
Para familiares, amigos ou treinadores preocupados com a alimentação de um atleta, ela oferece o seguinte conselho. “Primeiro, tente lembrar que transtornos alimentares não são uma escolha. Não se trata de vaidade. Um transtorno alimentar envolve uma interação complexa de neurobiologia, genética, traços de personalidade e outros fatores”, diz ela. É importante abordar cada atleta com compaixão, compreensão e apoio, em vez de crítica ou julgamento.
Além disso, assegure ao atleta que você se importa com ele independentemente de seu desempenho esportivo. “Uma das melhores maneiras de combater um transtorno alimentar é mostrar que, independentemente do talento que a pessoa tenha em determinada área, ela tem valor como ser humano”, diz a Dra. Becker. “Diga: ‘Estou preocupado com você, não porque acho que você vai se sair mal na próxima apresentação, competição, partida ou corrida. É porque realmente me importo com você como pessoa, e você não parece estar bem. Eu me importo com você e quero que você esteja bem o suficiente para fazer as coisas de que gosta, sejam elas quais forem.’”
A Dra. Becker sugere os seguintes recursos para atletas do sexo feminino, seus familiares e colegas de equipe:
- Academy for Eating Disorders
- EQUIP, um programa virtual de tratamento
- Multi-Service Eating Disorders Association
- National Eating Disorders Association