Como a gravidez pode afetar o coração?
A gravidez é um período de mudanças profundas no corpo. Além de causar sintomas conhecidos, como enjoo matinal e dor nas costas, a gravidez também pode sobrecarregar o coração.
“Para pacientes com doença cardíaca preexistente ou predisposição a determinadas condições, essa sobrecarga adicional pode causar problemas”, diz Katherine Economy, MD, especialista em medicina materno-fetal do Mass General Brigham. Dra. Economy é codiretora do Cardiovascular Disease and Pregnancy Program no Brigham and Women’s Hospital, onde atende pacientes.
“Meu trabalho é acompanhar com segurança tanto pacientes quanto bebês durante gestações de alto risco, incluindo gestantes com doença cardíaca”, diz a Dra. Economy. Saiba mais sobre como a doença cardíaca é diagnosticada e tratada durante a gravidez.
Efeito da gravidez sobre o coração
“Durante a gravidez, o volume de sangue aumenta muito. No terceiro trimestre, seu corpo tem de 50 a 60% mais sangue circulando”, diz a Dra. Economy. O coração precisa trabalhar mais para bombear esse sangue extra, o que acelera a frequência cardíaca nos últimos meses da gravidez. As alterações hormonais também podem afetar o funcionamento do coração.
Uma frequência cardíaca mais alta durante a gravidez e outras alterações no funcionamento do coração podem causar condições que podem ser graves. Felizmente, essas mudanças acontecem gradualmente ao longo da gravidez e o corpo se adapta. “A maioria das pacientes, mesmo com doença cardíaca, consegue compensar as mudanças à medida que elas ocorrem. Talvez seja necessário ajustar os medicamentos, mas é algo que conseguimos controlar”, diz a Dra. Economy.
Tipos de doença cardíaca na gravidez
Há 2 tipos de doença cardíaca durante a gravidez:
- Doença cardíaca preexistente: As pacientes podem engravidar já com um diagnóstico de doença cardíaca. Pode ser uma doença cardíaca congênita (doença cardíaca presente desde o nascimento, como um defeito em uma válvula) ou algo que se desenvolveu mais tarde. A gravidez pode agravar esses problemas.
- Doença cardíaca que se desenvolve durante a gravidez: Se as pacientes tiverem histórico familiar de diabetes ou hipertensão (pressão alta), essas condições podem surgir durante a gravidez.
Pressão alta durante a gravidez e outras condições cardíacas
Gestantes também podem desenvolver condições relacionadas à pressão alta, como pré-eclâmpsia, que causa pressão alta e aumento dos níveis de proteína na urina. Um histórico de pré-eclâmpsia aumenta o risco de doença cardíaca mais tarde na vida.
“De longe, a condição mais comum que vemos surgir durante a gravidez é a pressão alta, inclusive quando já existia antes. Arritmias e insuficiência cardíaca são menos comuns, mas podem ser tratadas”, explica a Dra. Economy. “Para pacientes propensas a arritmias (como FA), pode ser difícil tolerar o aumento da frequência cardíaca. Para pacientes cujo coração tem capacidade limitada de bombeamento, o volume extra de sangue pode causar muita sobrecarga.”
Para pacientes com condições médicas preexistentes, gostamos de conversar com elas antes de engravidarem. Analisamos o esquema de medicamentos e tentamos deixá-las o mais saudáveis possível antes da gravidez. Se as pacientes tiverem alguma preocupação sobre uma gravidez de alto risco, teremos prazer em ajudá-las nesse processo.
Katherine Economy, MD
- Especialista em medicina materno-fetal
- Mass General Brigham
Preparação para uma gravidez de alto risco
O ideal é que pacientes que possam ter uma gravidez de alto risco conversem com um especialista em medicina materno-fetal antes de engravidar. “Para pacientes com condições médicas preexistentes, gostamos de conversar com elas antes de engravidarem. Analisamos seus medicamentos e tentamos deixá-las o mais saudáveis possível antes da gravidez”, diz a Dra. Economy. “Se as pacientes tiverem alguma preocupação sobre uma gravidez de alto risco, teremos prazer em ajudá-las nesse processo.”
Condições que podem levar a uma gravidez de alto risco incluem:
Pressão alta e doença cardíaca estão entre as principais causas de mortalidade materna
Pesquisas recentes mostram que pacientes negras que dão à luz têm maior risco de mortalidade materna, ou seja, morte durante a gravidez, o parto ou o período pós-parto. Os motivos são complexos e ainda estão sendo estudados, mas incluem o racismo sistêmico. Pressão alta e doença cardíaca são duas das causas mais comuns de mortalidade materna. Outras causas comuns incluem hemorragia pós-parto, quando há sangramento maior do que o esperado após o parto, e infecção.
O Brigham é líder nacional nos esforços para proteger gestantes contra complicações que ameaçam a vida. A equipe de cuidados do Brigham fornece às gestantes com pressão alta monitores de pressão arterial para usar em casa e pede que entrem em contato com seus médicos se a pressão subir. Outras iniciativas do Brigham incluem diretrizes rigorosas para monitorar a perda de sangue durante o parto e aumentar a conscientização sobre o “viés inconsciente” que os médicos podem ter em relação a pacientes negros e de outras minorias raciais.
“Esse é um grupo de pacientes de quem devemos cuidar com atenção redobrada durante toda a gravidez. Se possível, gostaríamos de ter essas conversas antes da concepção com seus profissionais de atenção primária (PCPs) e OB/GYNs”, diz a Dra. Economy.
Tratamento da doença cardíaca na gravidez
“As pacientes recebem os melhores cuidados de uma equipe multidisciplinar, incluindo um cardiologista e um especialista em medicina materno-fetal”, diz a Dra. Economy. “Essa equipe inclui profissionais de enfermagem e anestesia quando chega o momento do trabalho de parto e do parto.” A equipe desenvolve um plano de tratamento para cada paciente, incluindo medicamentos, exames e monitoramento contínuo.
As pacientes muitas vezes se preocupam com a segurança dos medicamentos. “Há muitos, muitos medicamentos seguros durante a gravidez. O mais prejudicial é quando as pacientes decidem por conta própria interromper medicamentos porque temem que algo seja nocivo”, diz a Dra. Economy.
A história de Elisabeth: Desvendando o mistério de uma condição cardíaca genética
Após ser diagnosticada com uma forma genética de doença cardíaca chamada cardiomiopatia arritmogênica, Elisabeth Youngclaus estava preocupada que isso afetasse sua capacidade de formar uma família. Uma equipe multidisciplinar do Brigham and Women’s, incluindo a Dra. Economy, prestou cuidados coordenados para manter Elisabeth saudável durante 2 gestações bem-sucedidas.
Elisabeth e suas duas filhas pequenas posam ao ar livre perto de um campo.
Elisabeth Youngclaus e suas duas filhas
Monitoramento cardíaco adicional durante uma gravidez de alto risco
Pacientes com doença cardíaca são acompanhadas de perto durante toda a gravidez. “Montamos um plano para exames de imagem de rotina do bebê e para avaliar o coração da paciente”, diz a Dra. Economy. Isso pode incluir:
- Exames de sangue
- Exames de urina
- Ultrassonografias cardíacas (ecocardiogramas)
Sinais de problemas cardíacos durante a gravidez
É importante que todas as gestantes prestem muita atenção aos sintomas. “Pode ser um pouco complicado porque muitos sintomas de doença cardíaca se confundem com sintomas totalmente normais da gravidez, como falta de ar ou tornozelos inchados”, observa a Dra. Economy. As pacientes devem informar ao médico qualquer sintoma novo, mesmo que não tenham doença cardíaca preexistente.
Avise seu médico imediatamente ou ligue para 911 se apresentar algum dos seguintes sintomas:
- Confusão ou fala arrastada
- Dor de cabeça ou alterações na visão
- Sangramento intenso
- Sensação de desfalecimento ou desmaio
- Dormência no rosto, nos braços ou nas pernas
- Dor na vagina, no peito ou no abdômen
- Batimento cardíaco acelerado
- Falta de ar que piora com o tempo
- Inchaço nas mãos e no rosto
- Inchaço nas pernas que se estende às coxas e ao abdômen
Trabalho de parto e parto com doença cardíaca
Dar à luz também pode aumentar a sobrecarga do coração. “A dor do trabalho de parto pode estimular o coração a bater mais rápido, e isso às vezes pode causar problemas durante o trabalho de parto e o parto. Recomendamos que essas pacientes tenham controle adequado da dor para reduzir os estímulos dolorosos ao coração”, diz a Dra. Economy.
Gestantes com doença cardíaca podem dar à luz por via vaginal com segurança. “Às vezes, podemos recomendar que elas não façam força por tanto tempo ou com tanta intensidade quanto outras pacientes”, diz a Dra. Economy. “Podemos recomendar auxílio com fórceps ou vácuo, que são instrumentos usados com frequência para ajudar no parto seguro do bebê.” Os médicos realizam cesarianas em situações de emergência. Elas não são recomendadas como primeira opção por causa do risco de infecção e do aumento da perda de sangue.
Problemas cardíacos após a gravidez
Depois que a paciente dá à luz, o corpo passa por outro período de mudanças rápidas. “Todo o sangue extra que estava circulando pelo corpo volta diretamente para o coração”, explica a Dra. Economy.
A maioria das pacientes faz uma consulta 6 semanas após o parto, mas pacientes no pós-parto com doença cardíaca são acompanhadas com mais frequência e por mais tempo. “Gostamos de ver a paciente nas primeiras 72 horas e fazemos um monitoramento atento. Continuamos ajustando os medicamentos conforme necessário.”
Entre em contato com seu médico se apresentar algum destes sinais de alerta de problemas cardíacos no pós-parto:
- Dor no peito
- Dor extrema
- Dificuldade para respirar
- Alterações na visão ou dor de cabeça intensa
- Inchaço ou dor súbitos no rosto, nas pernas ou nas mãos
- Náusea ou vômito
Para pacientes que optam por amamentar, há opções de medicamentos seguros.